Apesar de já encerrado, importa ter uma leve ideia do que passam esses corredores, que tem, além do objetivo de chegar ao final da corrida, ultrapassar seus proprios limites. É uma prova de autosuperação.
O
BRASILEIRO Maycow Angelo Patrício, 35 anos, ajeita metodicamente os 12
quilos de sua mochila. Depois de se certificar de que tudo está no lugar
certo, Mico, como é chamado pelos amigos, abre um sorriso de
satisfação. Ele arruma o lenço na cabeça e olha mais uma vez para o
abismo de 600 metros do Grand Canyon, logo atrás da linha de largada.
Dentro de quatro minutos vai começar a primeira etapa da corrida de
longa distância Grand to Grand (G2G). O termômetro indica 12ºC. Mico
mais parece um monge tibetano meditando, de tão calmo e equilibrado. Ele
é daquele tipo de pessoa que todos admiram sem saber exatamente por
quê. Apenas três metros à frente, com seu rosto de traços delicados e um
corpo magro e leve de apenas 1,57 metros de altura, Maria Rita
Fernandes, de 46 anos, veio de Manaus para, assim como Mico, participar
pela primeira vez da ultramaratona de vários dias que acontece em uma
das regiões mais lindas dos Estados Unidos. Os atletas ainda não sabem,
mas esta será a primeira e a última visão ampla que terão do Grand
Canyon.
Na
Grand to Grand, que rolou em setembro passado, 113 atletas de 24 países
atravessaram o interior do território norte-americano durante sete dias
e seis etapas, passando pelos Estados de Utah e Arizona e seguindo os
vestígios dos antigos colonos e índios navajos. O percurso se estende
por 273 quilômetros, da fronteira norte do Grand Canyon até o topo dos
penhascos Pink Cliffs, em Utah, a uma altura de 2.621 metros. Quase não
há trilhas abertas por ali. O trajeto alterna trechos de cascalho,
terreno selvagem, dunas de areia, caminhos por florestas e estradas de
terra irregulares, com muita poeira. No total, os corredores superam um
desnível acumulado de 10.176 metros.
As
etapas atravessam desertos, vales, leitos de rios secos, cavernas,
desfiladeiros e incríveis formações rochosas. Quem for rápido demais
pode sofrer desidratação aguda, por isso se aventurar na competição
requer cuidado. Jeison Costa, 35 anos, é o mais experiente corredor
brasileiro na G2G. Ao lado de seu amigo argentino Christian Colque, no
ano passado ele tornou-se o primeiro latino-americano a correr em todos
os quatro grandes desertos do planeta, como parte do circuito Four
Deserts. Foram 250 quilômetros em cada deserto, no Atacama (Chile), em
Gobi (China), no Saara (Egito) e na Antártica. Comunicativo e sempre
bem-humorado, o especialista em tecnologia da informação foi contagiado
pelo vírus das ultramaratonas. Mesmo experiente e preparado, para ele a
Grand to Grand revelou-se “um desafio especial”. “A areia aqui é muito
macia. Então você chega ao limite físico e psicológico”, conta Jeison.
Pontualmente
às oito da manhã, o pelotão de atletas equipados com mochilas de
hidratação se põe em movimento para enfrentar os primeiros 50
quilômetros. Apenas sete quilômetros depois, um choque para o belga
Steven Sleuyter: ele cai e se contorce de dor. Seu ombro esquerdo se
deslocou. Como se estivesse em transe, Sleuyter empurra o próprio ombro
com toda a força. E consegue a proeza de colocá-lo no lugar novamente.
“Pensei que a corrida tinha acabado ali para mim”, diz o franzino
empresário de Bruges, com seus parcos 61 quilos.
Doze
quilômetros antes da linha de chegada da primeira etapa, o terreno se
transforma em uma zona de combate. Os corredores usam seus bastões para
afastar arbustos pontiagudos, alguns gritam de dor, outros mexem
agitados nos tênis. Vicente Juan Beneito, que lidera a prova no momento,
grita para aliviar o desespero. Seus tênis e suas pernas estão cheios
de espinhos. O grande corredor espanhol já passou por muitas situações
adversas, mas nunca tinha atravessado um campo de cactos. A equipe do
ponto de apoio tenta motivá-lo quando ele passa. “You are almost there!
[Você está quase lá!]” Infelizmente, a tortura continua até a linha de
chegada. A dor se parece com a picada de milhares de agulhas.
NA
SEGUNDA ETAPA, A TRILHA DOS NAVAJOS (Navajo Trail) atravessa 43
quilômetros por trechos de areia e terra batida. A largada acontece em
um pasto afastado do acampamento onde ficam os atletas. Liderando a
corrida, o espanhol Vicente, o belga Steven e o italiano Paolo Barghini
deixam os outros participantes rapidamente para trás. Um desses três
certamente será o vencedor da prova – já é possível sacar isso diante do
nível muito superior de sua performance. Ao meio-dia, o sol queima a
todos, brilhando como uma lâmpada de mesa cirúrgica. Para alguns
corredores, só essa etapa já será uma verdadeira prova de força. Alguns
receiam por seus pés – a areia fina se entranha nas meias. Para a
manauara Maria Rita, a prova já se tornou um “triathlon”, misturando
corrida, caminhada e marcha atlética.
Sob
um calor de 30ºC, alguns corredores na linha de chegada já manifestam
receio pela terceira e longa etapa que vem pela frente. O britânico
Damian Blanchard ostenta braços vermelhos como um camarão, o rosto
pálido e a voz monótona: “No final, minha água acabou”. O
norte-americano Yuriy Esperson parece bem abatido, como se tivesse
acabado de sair de uma briga de bar. “Em 1992, eu venci um campeonato de
24 horas aqui nos EUA, correndo 238 quilômetros. Por isso tenho pela
longa etapa da Grand to Grand o maior respeito.” Para o quarto
brasileiro na prova, o carioca Anderson Cerceau, de 43 anos, a corrida
tem sido perfeita até agora. Anderson cumpriu as duas primeiras etapas
com soberania, economizando forças e mantendo o ritmo. Sua colocação
entre os 30 melhores competidores comprova seu potencial.
Na
manhã do terceiro dia, os corredores matam os estressantes momentos
antes da largada preparando a mochila. Depois, é dada a partida para a
etapa decisiva, de cansativos 85 quilômetros.
O
TERRENO DA GRAND TO GRAND muda constantemente e apresenta sempre novos
desafios aos corredores. Cânions, dunas de areia, campos de cactos.
Alguns já não têm mais força, outros perderam a calma faz tempo. Assim
que o sol desaparece, a temperatura sofre uma queda brusca de 15ºC. Não
são poucos os atletas que fazem uma pausa ao escurecer para dormir um
pouco no ponto de apoio. A noite no deserto é meio fantasmagórica. Há
pequenas luzes por toda a parte – das lanternas de cabeça dos atletas,
dos diversos LEDs de sinalização instalados pela organização e do céu
estrelado de tirar o fôlego. Trata-se de um espetáculo natural
inesquecível. Segundos tornam-se minutos, minutos transformam-se em
horas. São 6h20. Maria Rita vê uma faixa. Depois de 22h20, ela é
recebida por Tess Geddes, uma pequena filipina de 55 anos que organiza
desde 2012 a ultramaratona com seu marido, Colin Geddes.
| Durante
seis etapas, 113 corredores de 24 países enfrentaram 273 quilômetros
dos desérticos Estados norte-americanos de Uath e Arizona para completar
a mítica ultramaratona Grand to Grand
Por Stephan Kappes
Fotos de Christiane Kappes PEDRADA: O britânico Lee Harris passa por túnel de pedra do Grand Canyon durante as competições
O
BRASILEIRO Maycow Angelo Patrício, 35 anos, ajeita metodicamente os 12
quilos de sua mochila. Depois de se certificar de que tudo está no lugar
certo, Mico, como é chamado pelos amigos, abre um sorriso de
satisfação. Ele arruma o lenço na cabeça e olha mais uma vez para o
abismo de 600 metros do Grand Canyon, logo atrás da linha de largada.
Dentro de quatro minutos vai começar a primeira etapa da corrida de
longa distância Grand to Grand (G2G). O termômetro indica 12ºC. Mico
mais parece um monge tibetano meditando, de tão calmo e equilibrado. Ele
é daquele tipo de pessoa que todos admiram sem saber exatamente por
quê. Apenas três metros à frente, com seu rosto de traços delicados e um
corpo magro e leve de apenas 1,57 metros de altura, Maria Rita
Fernandes, de 46 anos, veio de Manaus para, assim como Mico, participar
pela primeira vez da ultramaratona de vários dias que acontece em uma
das regiões mais lindas dos Estados Unidos. Os atletas ainda não sabem,
mas esta será a primeira e a última visão ampla que terão do Grand
Canyon.
Na
Grand to Grand, que rolou em setembro passado, 113 atletas de 24 países
atravessaram o interior do território norte-americano durante sete dias
e seis etapas, passando pelos Estados de Utah e Arizona e seguindo os
vestígios dos antigos colonos e índios navajos. O percurso se estende
por 273 quilômetros, da fronteira norte do Grand Canyon até o topo dos
penhascos Pink Cliffs, em Utah, a uma altura de 2.621 metros. Quase não
há trilhas abertas por ali. O trajeto alterna trechos de cascalho,
terreno selvagem, dunas de areia, caminhos por florestas e estradas de
terra irregulares, com muita poeira. No total, os corredores superam um
desnível acumulado de 10.176 metros.
As
etapas atravessam desertos, vales, leitos de rios secos, cavernas,
desfiladeiros e incríveis formações rochosas. Quem for rápido demais
pode sofrer desidratação aguda, por isso se aventurar na competição
requer cuidado. Jeison Costa, 35 anos, é o mais experiente corredor
brasileiro na G2G. Ao lado de seu amigo argentino Christian Colque, no
ano passado ele tornou-se o primeiro latino-americano a correr em todos
os quatro grandes desertos do planeta, como parte do circuito Four
Deserts. Foram 250 quilômetros em cada deserto, no Atacama (Chile), em
Gobi (China), no Saara (Egito) e na Antártica. Comunicativo e sempre
bem-humorado, o especialista em tecnologia da informação foi contagiado
pelo vírus das ultramaratonas. Mesmo experiente e preparado, para ele a
Grand to Grand revelou-se “um desafio especial”. “A areia aqui é muito
macia. Então você chega ao limite físico e psicológico”, conta Jeison.
Pontualmente
às oito da manhã, o pelotão de atletas equipados com mochilas de
hidratação se põe em movimento para enfrentar os primeiros 50
quilômetros. Apenas sete quilômetros depois, um choque para o belga
Steven Sleuyter: ele cai e se contorce de dor. Seu ombro esquerdo se
deslocou. Como se estivesse em transe, Sleuyter empurra o próprio ombro
com toda a força. E consegue a proeza de colocá-lo no lugar novamente.
“Pensei que a corrida tinha acabado ali para mim”, diz o franzino
empresário de Bruges, com seus parcos 61 quilos.
NA SECURA: O brasileiro Jeison Costa, e na foto mais acima, o norte-americano Craig Foster
Doze
quilômetros antes da linha de chegada da primeira etapa, o terreno se
transforma em uma zona de combate. Os corredores usam seus bastões para
afastar arbustos pontiagudos, alguns gritam de dor, outros mexem
agitados nos tênis. Vicente Juan Beneito, que lidera a prova no momento,
grita para aliviar o desespero. Seus tênis e suas pernas estão cheios
de espinhos. O grande corredor espanhol já passou por muitas situações
adversas, mas nunca tinha atravessado um campo de cactos. A equipe do
ponto de apoio tenta motivá-lo quando ele passa. “You are almost there!
[Você está quase lá!]” Infelizmente, a tortura continua até a linha de
chegada. A dor se parece com a picada de milhares de agulhas. Jeison
também é obrigado a parar várias vezes para tirar espinhos dos tênis.
“Em uma das paradas, vi uma cobra e corri como se fosse morrer”, diz
ele. Na chegada, quase todos os participantes estão ocupados usando
pinças.
NA
SEGUNDA ETAPA, A TRILHA DOS NAVAJOS (Navajo Trail) atravessa 43
quilômetros por trechos de areia e terra batida. A largada acontece em
um pasto afastado do acampamento onde ficam os atletas. Liderando a
corrida, o espanhol Vicente, o belga Steven e o italiano Paolo Barghini
deixam os outros participantes rapidamente para trás. Um desses três
certamente será o vencedor da prova – já é possível sacar isso diante do
nível muito superior de sua performance. Ao meio-dia, o sol queima a
todos, brilhando como uma lâmpada de mesa cirúrgica. Para alguns
corredores, só essa etapa já será uma verdadeira prova de força. Alguns
receiam por seus pés – a areia fina se entranha nas meias. Para a
manauara Maria Rita, a prova já se tornou um “triathlon”, misturando
corrida, caminhada e marcha atlética.
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Sob
um calor de 30ºC, alguns corredores na linha de chegada já manifestam
receio pela terceira e longa etapa que vem pela frente. O britânico
Damian Blanchard ostenta braços vermelhos como um camarão, o rosto
pálido e a voz monótona: “No final, minha água acabou”. O
norte-americano Yuriy Esperson parece bem abatido, como se tivesse
acabado de sair de uma briga de bar. “Em 1992, eu venci um campeonato de
24 horas aqui nos EUA, correndo 238 quilômetros. Por isso tenho pela
longa etapa da Grand to Grand o maior respeito.” Para o quarto
brasileiro na prova, o carioca Anderson Cerceau, de 43 anos, a corrida
tem sido perfeita até agora. Anderson cumpriu as duas primeiras etapas
com soberania, economizando forças e mantendo o ritmo. Sua colocação
entre os 30 melhores competidores comprova seu potencial.
Na
manhã do terceiro dia, os corredores matam os estressantes momentos
antes da largada preparando a mochila. Depois, é dada a partida para a
etapa decisiva, de cansativos 85 quilômetros. Logo fica claro que o
desafio não será nada fácil: dezenas de quilômetros de areia fofa
desenrolam-se na frente dos competidores, em um constante sobe e desce.
Os quatro brasileiros seguem espalhados e distantes uns dos outros.
CENAS DE UMA ULTRA: De cima para baixo, largada da prova; a norte-americana Julie Jenson e o belga Steven Sleuyter
Depois
de 13 horas, Maria Rita Fernandes ainda não desistiu. Ela caminha
devagar, com dificuldade, seus bastões sempre em ação. Bebe água como um
camelo. No mínimo, um litro por hora. O calor ela consegue suportar
bem, afinal temperaturas acima de 40ºC são normais em Manaus. Mas é com
as dores cada vez mais fortes que ela se preocupa de fato. “A areia fofa
me faz perder muita força, estou sentindo todos os músculos do corpo”,
diz. Para se preparar, Maria Rita correu apenas de 20 a 30 quilômetros
por dia. Ali, em meio à paisagem linda e desoladora, ela parece exausta.
Mico
é ortopedista. Além do treinamento para a corrida, ele se dedicou à
musculação até quatro vezes por semana para se fortalecer. Por isso
quase não sente o peso da mochila. Sua aparência lembra a de um modelo.
Barbudo, tem um tipo másculo. A respiração é levemente sibilante, e ele
corre com passadas curtas. “Tive medo das dunas de areia à meia-noite.
Eu me afundava até os joelhos de tão fofa que era a areia”, conta Mico.
Ele é o primeiro brasileiro a atravessar a linha de chegada, depois de
17h28 – cerca de 60 minutos à frente de Jeison e Anderson. Mais tarde,
Mico ainda receberá uma homenagem especial dos organizadores por ter
ajudado a salvar algumas vidas nessa noite. Quando três participantes
chegaram ao final da etapa com hipotermia e desmaiaram, Mico os socorreu
imediatamente, tomando todas as medidas para estabilizar o estado de
saúde dos colegas e cuidando deles até o sol nascer.
O
TERRENO DA GRAND TO GRAND muda constantemente e apresenta sempre novos
desafios aos corredores. Cânions, dunas de areia, campos de cactos.
Alguns já não têm mais força, outros perderam a calma faz tempo. Assim
que o sol desaparece, a temperatura sofre uma queda brusca de 15ºC. Não
são poucos os atletas que fazem uma pausa ao escurecer para dormir um
pouco no ponto de apoio. A noite no deserto é meio fantasmagórica. Há
pequenas luzes por toda a parte – das lanternas de cabeça dos atletas,
dos diversos LEDs de sinalização instalados pela organização e do céu
estrelado de tirar o fôlego. Trata-se de um espetáculo natural
inesquecível. Segundos tornam-se minutos, minutos transformam-se em
horas. São 6h20. Maria Rita vê uma faixa. Depois de 22h20, ela é
recebida por Tess Geddes, uma pequena filipina de 55 anos que organiza
desde 2012 a ultramaratona com seu marido, Colin Geddes.
VAI BRASIL: Anderson Cerceau atravessa paredões rochosos; abaixo, Maycon Angelo Patricio e sofrimento dos pés
Tess
é uma atleta apaixonada, com grande experiência em corridas
internacionais. Colin, um típico escocês e ex-bancário, cuida da
burocracia e dos negócios da Grand to Grand. Não há um prêmio para o
vencedor; os corredores que completam o percurso recebem somente uma
fivela de cinto com o símbolo da prova, idolatrada pelos corredores como
uma faixa de campeão mundial de boxe. Para participar, os atletas pagam
uma taxa de inscrição respeitável: quem se inscreve bem cedo paga
“apenas” US$ 2.400, enquanto aqueles que deixam para mais tarde precisam
desembolsar US$ 3.200 – um passeio bem caro pelo Grand Canyon.
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