quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Atleta de Rio Grande, deficiente visual, embarca para ultramaratona de 260 quilômetros no Deserto do Saara

Quando guri, ele fazia das ruas de Rio Grande, no sul do Estado, pistas de corrida. Não sabia que, 30 anos mais tarde, o que era apenas brincadeira de criança iria se tornar o alicerce de sua vida. Ao perder a visão devido a uma degeneração de retina, aos 34 anos, Vladmi dos Santos transformou o hobby em ferramenta para combater o ócio e a depressão — que, diga-se de passagem, nem chegaram a se instalar. Desde que começou a levar o esporte a sério, o maratonista tem procurado se desafiar. Ele embarca para a próxima aventura hoje, em direção ao deserto do Saara, onde participa da Maratona das Areias — um percurso de 260 quilômetros divididos em seis dias, considerado pela revista Time o mais exigente do planeta.

Atleta de Rio Grande, deficiente visual, embarca para ultramaratona de 260 quilômetros no Deserto do Saara Thiago Diz/Especial
O verão abrasador no Rio Grande do Sul tem sido alvo de reclamação para muita gente, mas não para Vladmi. Ele tem treinado sob o sol escaldante do meio-dia na praça Saraiva, centro de Rio Grande, intercalando entre grama, areia e saibro, mas sabendo que nada se compara às condições que deve encontrar no deserto: dunas altas, ventos de até 100 km/h, cobras e escorpiões no caminho, calor de 54ºC de dia e frio de 4ºC à noite.
Tudo isso — exceto a parte dos animais peçonhentos — ele já enfrentou no ano passado, ao correr o Atacama Crossing, no deserto chileno (chegou em 67º lugar e foi condecorado com o troféu Spirit, dedicado ao atleta mais inspirador e com mais espírito esportivo). Durante as chamadas ultramaratonas, os atletas precisam carregar nas costas os seus pertences pessoais e comida para todos os dias. Vladmi já está com a mochila pronta: 
 saco de dormir, kit de primeiros socorros, bússola, roupas extras, água e outros mantimentos somam 13,4 quilos aos 61 do atleta. Vladmi disputa a prova na categoria geral, sem privilégios por ser cego.
— A única diferença é que eu corro com um guia. Ele vai ser meus olhos durante o percurso — diz o rio-grandino, referindo-se ao amigo Alex Silva, companheiro de aventuras. Os dois correm lado a lado, segurando uma corda que mantém o elo.
Vencedor de maratonas como as de Genebra, Amsterdã, Berlim, Lisboa, Rio de Janeiro e São Paulo, o atleta está ansioso para rever, entre os 191 competidores de 48 países, os amigos coreanos, franceses e japoneses que fez durante o percurso do Atacama. Sim, rever. Vladmi, como bom defensor de que, como o Pequeno Príncipe, só se vê bem com o coração, não tem receio de usar o verbo.
— Vê-los de novo vai ser formidável. Essas maratonas são uma grande festa. As pessoas estão ali para superar seus próprios limites, ninguém quer vencer ninguém. Quando alguém cruza a linha de chegada, toca uma buzina, e os que já chegaram aplaudem, comemoram.

Não é o que acontece, segundo os relatos de Vladmi, quando o trajeto é curto, sem dificuldades para os maratonistas. Já ouviu debocharem de um atleta que estaria "perdendo pra um ceguinho".
— Que diferença faz, se nossas pernas e nossos pulmões são iguais? — pondera.
Vladmi e seu guia vão nesta quarta para Jordânia
O atleta parte na manhã de hoje com destino à Jordânia (não vão se hospedar no Egito por causa dos conflitos civis). No sábado, pegam um ônibus até o meio do deserto, onde montam acampamento.
Vladmi e seu guia, patrocinados pela PWC Assessorias e Evoke Veículos, pagaram 7,2 mil dólares pelas inscrições, o equivalente a mais de R$ 17 mil. Não há recompensa em dinheiro para os vencedores da prova. O principal prêmio, segundo o atleta, é a solidariedade entre os maratonistas. Nessas competições, diz ele, muita gente luta por suas causas particulares: tem gente que quer homenagear um familiar que morreu, outros buscam pagar uma promessa. ONGs também participam, com o objetivo de espalhar sua mensagem. E a mensagem de Vladmi é simples: fazer a vida valer a pena. Sem prognósticos de voltar a enxergar, ele preza pela sua independência — anda sozinho, dá banho nos cachorros, lava roupas, cozinha… — e rejeita o sentimento de pena. Na mão, refletem em três alianças de ouro o amor pela mulher e pelas duas filhas.
— São o meu amuleto. É o que me dá a certeza de que, apesar da deficiência, posso fazer o que quiser _ diz, vislumbrando participar de mais duas competições no ano que vem: a do deserto de Gobi, na China, e a Ultramaratona de Gelo da Antártida.

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