Quando guri, ele fazia das ruas de Rio Grande, no sul do Estado,
pistas de corrida. Não sabia que, 30 anos mais tarde, o que era apenas
brincadeira de criança iria se tornar o alicerce de sua vida. Ao perder a
visão devido a uma degeneração de retina, aos 34 anos, Vladmi dos
Santos transformou o hobby em ferramenta para combater o ócio e a
depressão — que, diga-se de passagem, nem chegaram a se instalar. Desde
que começou a levar o esporte a sério, o maratonista tem procurado se
desafiar. Ele embarca para a próxima aventura hoje, em direção ao
deserto do Saara, onde participa da Maratona das Areias — um percurso de
260 quilômetros divididos em seis dias, considerado pela revista Time o
mais exigente do planeta.
O verão abrasador no Rio Grande do Sul tem sido alvo de reclamação
para muita gente, mas não para Vladmi. Ele tem treinado sob o sol
escaldante do meio-dia na praça Saraiva, centro de Rio Grande,
intercalando entre grama, areia e saibro, mas sabendo que nada se
compara às condições que deve encontrar no deserto: dunas altas, ventos
de até 100 km/h, cobras e escorpiões no caminho, calor de 54ºC de dia e
frio de 4ºC à noite.
Tudo isso — exceto a parte dos animais peçonhentos — ele já enfrentou
no ano passado, ao correr o Atacama Crossing, no deserto chileno
(chegou em 67º lugar e foi condecorado com o troféu Spirit, dedicado ao
atleta mais inspirador e com mais espírito esportivo). Durante as
chamadas ultramaratonas, os atletas precisam carregar nas costas os seus
pertences pessoais e comida para todos os dias. Vladmi já está com a
mochila pronta:
saco de dormir, kit de primeiros socorros, bússola, roupas extras, água e outros mantimentos somam 13,4 quilos aos 61 do atleta.
Vladmi disputa a prova na categoria geral, sem privilégios por ser cego.
— A única diferença é que eu corro com um guia. Ele vai ser meus olhos durante o percurso — diz o rio-grandino, referindo-se ao amigo Alex Silva, companheiro de aventuras. Os dois correm lado a lado, segurando uma corda que mantém o elo.
Vencedor de maratonas como as de Genebra, Amsterdã, Berlim, Lisboa, Rio de Janeiro e São Paulo, o atleta está ansioso para rever, entre os 191 competidores de 48 países, os amigos coreanos, franceses e japoneses que fez durante o percurso do Atacama. Sim, rever. Vladmi, como bom defensor de que, como o Pequeno Príncipe, só se vê bem com o coração, não tem receio de usar o verbo.
— Vê-los de novo vai ser formidável. Essas maratonas são uma grande festa. As pessoas estão ali para superar seus próprios limites, ninguém quer vencer ninguém. Quando alguém cruza a linha de chegada, toca uma buzina, e os que já chegaram aplaudem, comemoram.
— A única diferença é que eu corro com um guia. Ele vai ser meus olhos durante o percurso — diz o rio-grandino, referindo-se ao amigo Alex Silva, companheiro de aventuras. Os dois correm lado a lado, segurando uma corda que mantém o elo.
Vencedor de maratonas como as de Genebra, Amsterdã, Berlim, Lisboa, Rio de Janeiro e São Paulo, o atleta está ansioso para rever, entre os 191 competidores de 48 países, os amigos coreanos, franceses e japoneses que fez durante o percurso do Atacama. Sim, rever. Vladmi, como bom defensor de que, como o Pequeno Príncipe, só se vê bem com o coração, não tem receio de usar o verbo.
— Vê-los de novo vai ser formidável. Essas maratonas são uma grande festa. As pessoas estão ali para superar seus próprios limites, ninguém quer vencer ninguém. Quando alguém cruza a linha de chegada, toca uma buzina, e os que já chegaram aplaudem, comemoram.
Não é o que acontece, segundo os relatos de Vladmi, quando o trajeto é
curto, sem dificuldades para os maratonistas. Já ouviu debocharem de um
atleta que estaria "perdendo pra um ceguinho".
— Que diferença faz, se nossas pernas e nossos pulmões são iguais? — pondera.
Vladmi e seu guia vão nesta quarta para Jordânia
O atleta parte na manhã de hoje com destino à Jordânia (não vão se
hospedar no Egito por causa dos conflitos civis). No sábado, pegam um
ônibus até o meio do deserto, onde montam acampamento.
Vladmi e seu guia, patrocinados pela PWC Assessorias e Evoke
Veículos, pagaram 7,2 mil dólares pelas inscrições, o equivalente a mais
de R$ 17 mil. Não há recompensa em dinheiro para os vencedores da
prova. O principal prêmio, segundo o atleta, é a solidariedade entre os
maratonistas. Nessas competições, diz ele, muita gente luta por suas
causas particulares: tem gente que quer homenagear um familiar que
morreu, outros buscam pagar uma promessa. ONGs também participam, com o
objetivo de espalhar sua mensagem.
E a mensagem de Vladmi é simples: fazer a vida valer a pena. Sem
prognósticos de voltar a enxergar, ele preza pela sua independência —
anda sozinho, dá banho nos cachorros, lava roupas, cozinha… — e rejeita o
sentimento de pena. Na mão, refletem em três alianças de ouro o amor
pela mulher e pelas duas filhas.
— São o meu amuleto. É o que me dá a certeza de que, apesar da deficiência, posso fazer o que quiser _ diz, vislumbrando participar de mais duas competições no ano que vem: a do deserto de Gobi, na China, e a Ultramaratona de Gelo da Antártida.
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— São o meu amuleto. É o que me dá a certeza de que, apesar da deficiência, posso fazer o que quiser _ diz, vislumbrando participar de mais duas competições no ano que vem: a do deserto de Gobi, na China, e a Ultramaratona de Gelo da Antártida.
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