Brasileiro defende a liderança do ranking do circuito mundial na "praia dos crânios quebrados", no Taiti. Representante local, Michel Bourez tenta enfim brilhar em casa
A janela de espera da etapa mais temida do Circuito Mundial de Surfe
(WCT) começa nesta sexta-feira (quinta à noite no Brasil) nos
tubos perfeitos de Teahupoo, em Taiarapu, no Taiti. No idioma original
dos polinésios, Teahupoo significa "crânio quebrado". A
razão para o nome é simples: uma queda sobre a rasa e pontiaguda
bancada de
corais venenosos, a menos de 1 metro de profundidade, é capaz de rachar
a cabeça de um surfista ao meio. Embora seja perigosa para quem a
desafia, a famosa onda também é o sonho de muitos atletas. Primeiro
taitiano a integrar a elite do surfe mundial, Michel Bourez conhece como
poucos os mistérios da Polinésia Francesa. Campeão das etapas de
Margaret River e do Rio de Janeiro, o atleta da ilha de Rurutu ainda não
teve resultados expressivos no "quintal de casa", mas espera quebrar o
jejum para recuperar a liderança do ranking, nas mãos de Gabriel Medina.
-
Eu conheço muito bem Teahupoo, tenho o conhecimento dos locais. Os
segredos dessa onda estão dentro de todos os surfistas. De ir ou não
quando o mar está grande... E pegar as melhores ondas. Mas Teahupoo é
sempre perigosa, pequena ou grande, o tamanho não importa. É muito fácil
ir contra a barreira de corais - disse Michel Bourez, cujo melhor
resultado é Teahupoo é o nono lugar em 2009 e 2010.
O
início da disputa
depende das condições do mar. Em caso de poucas ondas, a realização das
baterias é adiada até que a maré fique boa. A janela pode ser encerrada
até o dia 26, e os organizadores podem escolher o melhor momento para o
início do espetáculo. De acordo com a previsão oficial do "Surfline", os
primeiros dias devem ser de ondas fracas, um resquício do swell que
atingiu o local no início da
semana. Um novo swell está previsto para domingo e deve ganhar
força na próxima segunda-feira.
A última semana do evento terá ondulações consistentes.
A
vitória na "praia dos crânios quebrados" vale 10.000 pontos e uma
premiação de US$ 100 mil (R$
221,4 mil). Medina segue como número um do mundo, com 36.150 pontos, mas
é ameaçado por seis surfistas. Os australianos Joel Parkinson (34.400),
Mick Fanning (32.650) e Taj Burrow (31.950) estão em segundo, terceiro e
quarto lugares do ranking, respectivamente. Bourez (30.500) é o quinto,
e Adriano de Souza, o Mineirinho, está em sexto, ainda com chances de
brigar pelo topo. Quem defende o título da sétima de 11 etapas é o
"aussie" Adrian Buchan.
Bourez ameaça Medina na liderança
Um
dos principais expoentes da nova geração do "power surf", termo em
inglês que define o estilo baseado na força aplicada nas
manobras e rasgadas, que costumam jogar muita água para o alto, Bourez
segue a linha do tricampeão mundial Mick Fanning. A força de suas
manobras e a forma destemida com que encara monstros como os de Teahupoo
transformaram o taitiano em um verdadeiro gladiador dos mares. O
surfista de 28 anos também responde pelo apelido de "Espartano"
(Spartan), uma brincadeira que surgiu entre amigos após assistirem ao
filme "300", mas que se encaixou perfeitamente no seu estilo.
Um
dos segredos para a boa regularidade de Bourez na temporada de 2014 é o
jiu-jítsu. Além dos treinos físicos e no mar, o surfista melhorou a sua
resistência com a prática da luta este ano. Determinado a voltar ao
topo do ranking mundial, ele aguarda um swell épico no paraíso do surfe.
-
Espero surfar com boas condições em Teahupoo, a previsão do tempo está
uma loucura para o início da competição. Estou muito empolgado. Vou
recuperar a liderança com uma vitória em "Tchops" - vibrou o taitiano.
Situado
a cerca de um quilômetro da costa taitiana, Teahupoo pode
receber ondas de até 10m. Elas quebram sobre uma bancada de
corais pontiagudos e a busca pelo tubo perfeito pode transformar
o sonho em pesadelo em um piscar de olhos. Durante a época do WCT, a
ondulação costuma
ser menor: não chega a 5m. A cada ano, cerca de dez surfistas
vão parar na enfermaria. Em 2002, um surfista local morreu após
ser sugado por um paredão de água e jogado contra os corais.
O
maior incidente registrado por um brasileiro no famoso pico ocorreu com
Neco
Paradatz, em 2000. O catarinense foi sugado por uma onda e arremessado
contra os corais, onde acabou ficando preso. Ele teve de ser
resgatado e levou anos para superar o trauma. Mas o Brasil tem bons
motivos para comemorar no Taiti. Foi na perigosa bancada de corais que
Bruno Santos venceu em 2008 e fez o país reencontrar o caminho das
vitórias no surfe mundial. O atleta de Niterói (RJ), que faz parte da
equipe de Medina, tentou uma vaga na chave através do qualificatório
deste ano. Como não conseguiu, continuará no Taiti para ajudar o
fenômeno da nova geração a se manter na liderança do WCT.
-
O Bruno Santos vai estar lá. Ele é um cara da mesma equipe que eu. Foi o
único brasileiro que ganhou essa etapa. Ele vai me dar conselhos e vai
me ajudar. Vai ser muito bom ter um cara desse porte do meu lado. Vai
estar tudo conspirando a meu favor. Qualquer atleta tem o sonho de ganhar essa etapa de Teahupoo. É
uma etapa muito importante. Eu por ser "goofy" (quem tem como base a perna esquerda), com certeza, tenho um
pouco de vantagem. Dá para você ver mais a onda. Ver o que você vai
fazer. Vai ser uma etapa legal - destacou Gabriel Medina, o "The Freak" ("A Aberração").
Maya relembra susto no Taiti
Considerada uma das melhores surfistas de ondas grandes do mundo,
Maya Gabeira já sentiu na pele a força do mar em Teahupoo. Se em junho
deste ano, a big rider carioca passou por um susto ao fraturar o nariz após uma queda na barreira de corais, a sua vida esteve em risco há três
anos. Em 2011, ela sofreu um acidente sério, levou uma sequência de
ondas na cabeça e precisou ser resgatada por Carlos Burle, mestre em
ondas gigantes.
-
Tomei caldos numa parte muito rasa da bancada, então a minha maior
preocupação era me proteger dos corais para não dar uma pancada mais
forte e apagar. Existem vários segredos, mas acho que a experiência no
local é muito importante, pois Teahupoo é uma onda única. O cuidado
maior é com a bancada de coral, que é muito rasa. O principal medo é
sempre cair e bater na bancada - disse a surfista carioca.
Além do susto no Taiti, Maya sofreu um acidente ainda mais grave foi em outubro de 2013, quando tentava bater o recorde de
Garrett McNamara (78 pés ou 24 metros), na Praia do Norte, em Nazaré,
Portugal. Mais uma vez, Maya foi salva pelo amigo Burle. Na ocasião, ela lembrou que a sensação era como se tivesse sido nocauteada por Mike Tyson.
Confira as baterias do round 1 da 7ª etapa do WCT:
1) Kelly Slater (EUA) x Sebastian Zietz (HAW) x Glenn Hall (IRL)
2) Michel Bourez (PYF) x Matt Wilkinson (AUS) x Raoni Monteiro (BRA)
3) Taj Burrou (AUS) xc Adam Melling (AUS) x Brett Simpson (EUA)
4) Mick Fanning (AUS) x Alejo Muniz (BRA) x Mitch Coleborn (AUS)
5) Joel Parkinson (AUS) x Adrian Buchan (AUS) x Nathan Hedge (AUS)
6) Gabriel Medina (BRA) x Mitch Crews (AUS) x Taumata Puhetini (PYF)
7) Adriano de Souza (BRA) x Miguel Pupo (BRA) x Dion Atkinson (AUS)
8) Nat Young (EUA) x C. J. Hobgood (EUA) x Tiago Pires (PRT)
9) Kolohe Andino (EUA) x Freddy Patacchia Jr. (HAW) x Aritz Aranburu (ESP)
10) Josh Kerr (AUS) x Julian Wilson (AUS) x Jadson André (BRA)
11) Owen Wright (AUS) x Bede Durbidge (AUS) x Travis Logie (ZAF)
12) Jordy Smith (ZAF) x John John Florence (HAW) x Kai Otton (AUS)
Nenhum comentário:
Postar um comentário